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Próstata e saúde urinária depois dos 50

Início / Sangue na urina: causas, o que fazer e quando é urgência

Sangue na urina: o que pode ser e o que fazer

Redação Viver Bem 50 Atualizado a 24 de setembro de 2026 13 min de leitura

Resposta curta: sangue na urina — hematúria — exige sempre avaliação médica, mas nem sempre é urgência. Sem dor forte, sem febre, a conseguir urinar e a sentir-se bem, é consulta em 1 a 2 dias. Com coágulos a travar o jato, impossibilidade de urinar, febre, dor intensa ou tonturas, é urgência no próprio dia. As causas mais frequentes nos homens são infeção, cálculos e próstata aumentada. Mesmo no grupo de risco mais alto da diretriz americana AUA/SUFU de 2025, a probabilidade de cancro fica entre 1,3 e 6,3% — mas só a investigação diz qual é o caso.

>3
eritrócitos por campo definem hematúria microscópica (AUA/SUFU 2025)
1–2 dias
prazo para consulta quando não há sinais de alarme
1,3–6,3%
risco de causa maligna no grupo de risco alto
2 765
casos novos de cancro da bexiga por ano em homens em Portugal (GLOBOCAN 2024)

Quando é para a urgência hoje

Sangue na urina com coágulos que dificultam urinar, impossibilidade de urinar, febre ou tonturas é urgência hospitalar no mesmo dia, segundo o Manual MSD. Em risco de vida liga-se o 112 (INEM); para saber onde ir, a linha SNS 24 (808 24 24 24) faz triagem 24 horas por dia.

Vá hoje à urgência se, além do sangue, houver:

  • impossibilidade de urinar, ou a urina a «travar» por coágulos
  • muito sangue ou coágulos em quantidade
  • febre, sobretudo com ardor ao urinar ou dor lombar
  • dor súbita e intensa no baixo ventre, no flanco ou na zona lombar
  • tonturas, desmaio ou fraqueza marcada
  • traumatismo recente
  • toma de anticoagulantes com sangramento abundante
  • inchaço das pernas com tensão arterial alta

Sem nenhum destes sinais: consulta em 1 a 2 dias

Continua a ser motivo de consulta, rápida. Sangue na urina não se ignora nem se espera para ver se passa. O sangue pode desaparecer sozinho e a causa manter-se: ter melhorado não substitui a avaliação.

O que pode ser sangue na urina?

Nos homens, as causas mais comuns são, por esta ordem: infeção urinária (cistite ou prostatite), cálculos urinários, hiperplasia benigna da próstata e, depois, tumores das vias urinárias — bexiga, rim ou próstata. A série clínica publicada na PMC e o StatPearls descrevem esta ordem.

  1. Infeção — a inflamação faz sangrar a mucosa. Sobre a próstata inflamada: prostatite, sintomas e tipos
  2. Cálculos (litíase) — a pedra fere ao passar
  3. Hiperplasia benigna da próstata — a causa benigna mais comum nas séries clínicas; explicada em hiperplasia benigna
  4. Tumores — o carcinoma da bexiga é a causa maligna mais frequente

Outras causas descritas: traumatismo, procedimentos e algaliação, doenças glomerulares do rim, cistite actínica (depois de radioterapia) e exercício intenso.

Quando o sangue visível se repete e é atribuível à hiperplasia, deixa de ser só um sintoma: passa a constar das indicações formais para operar a próstata.

Que cor, que causa, que pressa: a tabela prática

A cor e as circunstâncias orientam a pressa, mas não fazem o diagnóstico. Esta tabela junta o que o Manual MSD, o StatPearls e a diretriz AUA/SUFU 2025 dizem sobre cada situação.

Cor ou situação Causa provável Urgência
Urina vermelha com coágulos que travam o jato sangramento abundante urgência hoje
Sangue com febre, ardor ou dor lombar infeção (cistite, prostatite, rim) urgência hoje
Sangue com dor súbita no flanco ou baixo ventre cálculo ou coágulo urgência hoje
Sangue visível sem dor, homem com 60 anos ou mais várias, incluindo tumor da bexiga consulta em 1–2 dias, investigação completa
Sangue só na análise, sem sintomas depende do grupo de risco consulta marcada
Urina rosada depois de beterraba ou ruibarbo pigmento do alimento análise para confirmar
Urina avermelhada com rifampicina ou fenazopiridina pigmento do medicamento análise para confirmar
Sangue depois de exercício muito intenso hematúria transitória benigna repetir análise; conclusão só depois de excluir o resto

A ausência de dor não tranquiliza. Sangue visível sem dor num homem mais velho é precisamente a situação que a diretriz AUA/SUFU coloca no grupo de risco alto.

Dor no baixo ventre e sangue na urina: o que significa?

Dor no baixo ventre com sangue na urina aponta, na maior parte dos casos, para infeção da bexiga ou da próstata, ou para um cálculo — são as causas em que a dor acompanha o sangue. Se a dor for súbita e intensa, ou vier com febre, é urgência no próprio dia.

Há uma terceira situação a reconhecer: coágulos que enchem a bexiga e não saem. A bexiga distende, dói acima do púbis e a urina não passa. É retenção urinária, e é assunto da urgência hospitalar, não do dia seguinte.

Com dor ligeira, ardor e sem febre, o primeiro passo é a análise de urina com urocultura. Num homem, as bactérias da infeção urinária são as mesmas da prostatite, e o médico vai querer saber de onde vem a infeção.

Visível ou só no microscópio: qual é a diferença?

A hematúria macroscópica vê-se a olho nu; a microscópica só aparece na análise e define-se, pela diretriz AUA/SUFU de 2025, por mais de 3 eritrócitos por campo de grande ampliação numa amostra bem colhida.

O que é Peso no risco
Hematúria macroscópica urina rosada, vermelha ou acastanhada ter tido sangue visível coloca no grupo de risco alto
Hematúria microscópica só se deteta na análise ao microscópio na forma sem sintomas, causa maligna em cerca de 3 a 5% dos casos avaliados, segundo o curso da AUA

«Vestígios de sangue» num resultado costuma corresponder a hematúria microscópica. Nenhuma das duas se deixa por investigar.

Nem toda a urina vermelha é sangue

Beterraba, ruibarbo e corantes alimentares tingem a urina; entre os medicamentos, a fenazopiridina e a rifampicina fazem o mesmo, segundo o Manual MSD. O exercício muito intenso pode dar uma hematúria transitória e benigna.

Isto não é motivo para adiar. Distinguir urina pigmentada de sangue verdadeiro faz-se com uma análise, não a olho. Quem comeu beterraba na véspera deve dizê-lo na consulta — e ir na mesma.

Que medicamentos podem estar envolvidos?

Vários fármacos causam hematúria ou mudam a cor da urina, segundo o StatPearls:

  • anticoagulantes (varfarina) e antiagregantes
  • alopurinol, captopril, cefalosporinas, furosemida
  • ciclofosfamida, ifosfamida, indinavir, clorpromazina, hidralazina

Os anticoagulantes merecem nota dupla: podem tornar visível um sangramento que já existia por outra causa. A investigação faz-se na mesma, e nenhum medicamento se suspende por iniciativa própria.

O ginkgo biloba, presente em algumas fórmulas vendidas «para a próstata», aumenta o risco de hemorragia com anticoagulantes. A lista dessas combinações está na análise ingrediente a ingrediente.

Como o médico calcula o risco: a tabela AUA/SUFU 2025

A diretriz de microhematúria da Associação Americana de Urologia e da SUFU (revista em 2025) põe cada pessoa num de três grupos de risco, e o grupo decide os exames. Para homens, os critérios são estes:

Grupo Critérios no homem (basta um nos grupos intermédio e alto) Risco de causa maligna O que se faz
Baixo 3–10 eritrócitos/campo, menos de 40 anos, nunca fumou ou menos de 10 maços-ano, sem outros fatores 0–0,4% repetir a análise de urina em 6 meses
Intermédio 11–25 eritrócitos/campo, ou 40–59 anos, ou 10–30 maços-ano, ou um fator de risco urotelial 0,2–3,1% cistoscopia e ecografia renal
Alto mais de 25 eritrócitos/campo, ou sangue visível no passado, ou 60 anos ou mais, ou mais de 30 maços-ano 1,3–6,3% cistoscopia e TC do aparelho urinário (uro-TC)

«Maços-ano» é o número de maços por dia multiplicado pelos anos a fumar. É por isso que o médico pergunta pelo tabaco, incluindo o de há décadas: a resposta muda o grupo.

Um homem com 60 anos ou mais entra no grupo alto só pela idade. Para o leitor deste site, isso quer dizer que a investigação completa, com cistoscopia, é o caminho esperado — não um exagero do médico.

A diretriz acrescenta uma exceção: história familiar de cancro do rim ou suspeita de síndrome de Lynch pede sempre imagem do aparelho urinário superior, qualquer que seja o grupo.

Que exames esperar?

O primeiro passo é sempre o mesmo: análise de urina com sedimento, urocultura e creatinina no sangue para avaliar o rim, segundo o percurso descrito pela Saúde Bem-Estar e pelo StatPearls.

Exame Quando costuma ser indicado
Ecografia renal e vesical risco intermédio, ou quando se prefere exame sem radiação
Citologia urinária suspeita de tumor urotelial, sobretudo com sangue visível
TC urografia (uro-TC) risco alto, ou sangue persistente sem causa encontrada
Cistoscopia observação direta do interior da bexiga

Nem toda a gente faz todos. A citologia, por exemplo, não é exame de rotina na avaliação inicial. No privado, uma cistoscopia custa 470 € na X-Clinic, em Lisboa (preço publicado, consultado em 2026).

Se a suspeita recair sobre a próstata, a lista muda: os exames dirigidos à próstata começam pelo toque retal e pela análise de PSA.

Sangue na urina pode ser cancro?

Pode, mas na maioria dos casos não é: mesmo no grupo de risco alto da diretriz AUA/SUFU 2025, a causa maligna aparece em 1,3 a 6,3% dos casos, o que quer dizer que em pelo menos 93 em cada 100 a causa é outra.

Em Portugal, o cancro da bexiga é o quarto mais frequente nos homens, com 2 765 casos novos por ano, segundo a ficha GLOBOCAN 2024 da Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC), publicada em 2026. É por isso que o sangue visível num homem acima dos 50 anos se investiga até ao fim.

A probabilidade está do lado de quem tem o sintoma, e é exatamente por isso que investigar faz sentido. Quando existe doença séria, encontrá-la cedo muda o desfecho. Adiar a consulta não reduz a probabilidade — reduz apenas as opções.

E se não encontrarem nada?

Uma parte dos casos fica sem causa identificada depois da investigação completa, e o habitual é então a vigilância: repetir análises com uma periodicidade definida, para ver se o achado persiste, desaparece ou muda.

Não é o mesmo que «não era nada». É «procurámos com os meios adequados e não encontrámos, por isso vamos continuar a olhar». Se aparecerem sintomas novos — dor, febre, dificuldade em urinar, sangue visível outra vez — a investigação reabre e não se espera pela data marcada.

Porque é que as pessoas adiam a consulta?

Três razões aparecem sempre. O sangue apareceu uma vez e não voltou. Há medo do que se vai encontrar, e adiar parece controlo. E a consulta demora, e há sempre algo mais urgente na semana.

Contra a primeira: a causa pode manter-se depois de o sinal desaparecer. Contra a segunda: mesmo no grupo de risco alto, a maioria das causas não é maligna, e quando é, o desfecho depende de quando se encontra. Contra a terceira: a análise de urina é rápida, e é o primeiro passo de qualquer forma.

Onde fazer a avaliação em Portugal?

Sem sinais de alarme, o caminho começa no médico de família do centro de saúde: pede a análise de urina e a urocultura e, conforme o resultado, referencia para urologia na Unidade Local de Saúde (ULS) da área.

Desde 1 de junho de 2022 as consultas e os exames pedidos no SNS deixaram de pagar taxa moderadora; a cobrança mantém-se só na urgência hospitalar sem referenciação, segundo o SNS. Para a primeira consulta hospitalar, a lei dá 120 dias com prioridade normal e 30 dias quando o pedido é muito prioritário, conforme a ERS — e sangue visível num homem mais velho é motivo para o médico pedir prioridade.

Os passos da marcação, no SNS e no privado, estão em consulta de urologia no SNS, no privado e com ADSE.

O que levar à consulta

  • quando apareceu e quantas vezes
  • a cor — rosada, vermelha viva, acastanhada
  • se havia coágulos
  • se apareceu no início, no fim ou durante toda a micção
  • sintomas associados: dor, ardor, febre, dor lombar
  • lista completa de medicamentos e suplementos
  • se fuma ou fumou, e durante quanto tempo
  • se houve esforço físico intenso ou traumatismo nos dias anteriores

O que esta página faz e o que não faz

Aqui estão as causas do sangue na urina num homem, os sinais que mandam para a urgência, a forma como a diretriz AUA/SUFU 2025 calcula o risco e os exames que se seguem.

Aqui não está a resposta para um caso concreto. A cor, a dor e a idade orientam a pressa, mas quem distingue infeção, cálculo, próstata ou tumor é a análise e o exame — no centro de saúde, na urgência ou na consulta de urologia.

Porque nunca escrevemos «pode esperar para ver»

Porque o sangue desaparece muitas vezes sozinho e a causa fica. Um texto que tranquilizasse o leitor a ponto de adiar a análise estaria a trocar uns dias de alívio por meses de atraso num caso em que o tempo conta.

Pela mesma razão, esta página não vende nem recomenda nenhum produto. Quem procura por sangue na urina precisa de uma análise, não de um frasco.

Fontes utilizadas 14

  1. AUA/SUFU — Microhematuria Guideline (2020, revista em 2025) — https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/microhematuria
  2. American Urological Association — Hematuria, currículo para estudantes — https://www.auanet.org/meetings-and-education/for-medical-students/medical-students-curriculum/hematuria
  3. StatPearls, NCBI Bookshelf — Gross and Microscopic Hematuria — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK534213/
  4. Manual MSD, edição para o público — Sangue na urina — https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-renais/sintomas-das-doen%C3%A7as-renais/sangue-na-urina
  5. Série clínica sobre causas cirúrgicas de hematúria (PMC) — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8132832/
  6. Saúde Bem-Estar — Sangue na urina: causas e abordagem — https://www.saudebemestar.pt/pt/clinica/urologia/sangue-na-urina/
  7. IARC/GLOBOCAN 2024 — Ficha de Portugal (PDF) — https://gco.iarc.who.int/media/globocan/factsheets/populations/620-portugal-fact-sheet.pdf
  8. EAU Guidelines on Urological Infections, 2025 (PDF) — https://d56bochluxqnz.cloudfront.net/documents/full-guideline/EAU-Guidelines-on-Urological-infections-2025_2025-05-24-110339_pxmf.pdf
  9. SNS — Linhas de atendimento gerais (SNS 24 808 24 24 24, 112) — https://www.sns.gov.pt/sns-saude-mais/linhas-de-atendimento-gerais/
  10. SNS — Fim das taxas moderadoras, 27.05.2022 — https://www.sns.gov.pt/noticias/2022/05/27/fim-das-taxas-moderadoras-no-sns/
  11. ERS — Tempos Máximos de Resposta Garantidos — https://www.ers.pt/pt/utentes/perguntas-frequentes/faq/tempos-maximos-de-resposta-garantidos-tmrg/
  12. Decreto-Lei n.º 102/2023 — Unidades Locais de Saúde (PDF, Diário da República) — https://files.diariodarepublica.pt/1s/2023/11/21500/0000400020.pdf
  13. X-Clinic — Cistoscopia, preço particular — https://www.xclinic.pt/exames/cistoscopia
  14. Manual MSD, edição profissional — Prostatite — https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-geniturin%C3%A1rios/doen%C3%A7a-prost%C3%A1tica-benigna/prostatite

Perguntas frequentes

  1. Vestígios de sangue na urina são graves?

    «Vestígios» costuma corresponder a hematúria microscópica, detetada só na análise. A maioria dos casos tem causa benigna, mas a avaliação é obrigatória, porque é o grupo de risco AUA/SUFU que decide que exames fazer.

  2. Coágulos de sangue na urina significam o quê?

    Coágulos indicam sangramento mais abundante. Se estiverem a dificultar ou a impedir a micção, é urgência hospitalar no próprio dia, porque a bexiga pode encher e não esvaziar.

  3. Sangue na urina sem dor é menos grave?

    Não. A ausência de dor não exclui nada: sangue visível sem dor num homem com 60 anos ou mais é justamente um critério do grupo de risco alto. A dor costuma apontar para infeção ou cálculo.

  4. O sangue na urina pode vir da próstata?

    Pode. A hiperplasia benigna é a causa benigna mais frequente nas séries clínicas, e a prostatite também faz sangrar. O diagnóstico faz-se excluindo as outras causas, não por suposição.

  5. Passou sozinho. Ainda preciso de ir ao médico?

    Sim. O sangue pode desaparecer e a causa manter-se, e ter tido sangue visível coloca, por si só, no grupo de risco alto da diretriz AUA/SUFU 2025.

  6. Tomo anticoagulantes. É por causa disso?

    Pode contribuir, mas o anticoagulante costuma tornar visível um sangramento que já tinha outra causa. Por isso a investigação faz-se na mesma, e a medicação não se suspende por iniciativa própria.